O enterro de uma bicicleta e a dor de África: a ironia de Nelson Saúte

Texto de divulgação científica dos alunos de Letras da UNEB Euclides da Cunha: Fábio Almeida, Gilvan Almeida, Maria Eloísa Cardoso & Sara Santana sob supervisão do Prof. Dr. Wagner Lemos.  Resultado da disciplina Estudos DE Literatura Africana em Língua Portuguesa.

Nas redes sociais, é comum encontrar pessoas que demonstram grande apego a carros, motos e bicicletas, chegando a dar-lhes nomes e compartilhar histórias vividas ao seu lado. Mais do que simples objetos, esses meios de transporte podem representar liberdade, conquistas e esperança. Essa relação simbólica ajuda a compreender por que, no conto “O Enterro da Bicicleta”, a bicicleta assume um papel central na discussão sobre memória, desigualdade e identidade coletiva.

Presente na obra “Rio dos Bons Sinais”, o conto retrata as dificuldades enfrentadas pelos moçambicanos após a emancipação da nação. Seu autor, Nelson Saúte, nasceu na capital do país poucos anos antes da independência e consolidou-se como uma das principais vozes da literatura africana de língua portuguesa. Em suas obras, o escritor aborda as dores, as memórias e os desafios de Moçambique no período pós-colonial.

Entre o trágico e o absurdo, o conto acompanha o impacto da morte de um deputado muito admirado por uma comunidade rural. A caminho da capital, o político é atacado e devorado por um leão, restando apenas retalhos de suas roupas e sua bicicleta retorcida. Diante da ausência do corpo, mas movidos pela necessidade de dar um descanso digno à alma do líder, os moradores tomam uma decisão incomum: realizar o sepultamento da própria bicicleta, já que o deputado representava o principal elo entre a comunidade e a capital.

Saúte demonstra seu tom satírico ao aproximar a tradição local da burocracia moderna. Isso fica evidente na linguagem do conto, marcada pelo contraste entre elementos grandiosos, como “funeral de Estado” e “mausoléu”, e a realidade de pobreza vivida pela comunidade. O resultado é um humor que também reforça a crítica às desigualdades sociais.

Embora escrito há décadas, o conto continua atual. Assim como muitas pessoas criam laços com seus meios de transporte, os moradores da narrativa atribuem à bicicleta um significado que vai além de sua função prática. Ao transformar seu enterro em um acontecimento coletivo, Nelson Saúte mostra como objetos também podem carregar histórias, lembranças e afetos.

Para saber mais:

ESCOLA ESTADUAL DO CAMPO BENEDITO SERRA. Lidianópolis O enterro da bicicleta Saute. YouTube, 8 de dez. de 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cfV3Llhylkw. Acesso em: 04 jun. 2026.

UM LIVRO ME ENSINOU. O enterro da bicicleta. YouTube, 31 ago. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dVXXnjm3ajk. Acesso em: 04 jun. 2026.

SAÚTE, Nelson. O enterro da bicicleta. In: CHAVES, Rita (org.). Contos africanos dos países de língua portuguesa. Ilustrações de Apo Fousek. 1. ed. São Paulo: Ática, 2009. p. 30 – 39.

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